DEPOIMENTOS:


“Fiz edições especiais sobre a Amazônia e outras em francês, para os 200 anos da Revolução Francesa e outra, a tarefa mais estranha de minha vida, em russo, quando Adolpho (Bloch) foi à União Soviética na comitiva do presidente José Sarney e bateu estranhíssimo papo com Mikhail Gorbachev, que se espantou da edição que havíamos feito. Os dois tiveram complicado e improvável diálogo na língua natal de ambos e descobriram que haviam sido amigos de infância.”
Carlos Heitor Cony


“Lembro que me chamava a atenção, naqueles almoços promovidos pela Manchete, muitas vezes em torno de personalidades mundiais que visitavam o Brasil, o ambiente familiar, formado por pessoas de idades e naturezas tão diferentes, e que até politicamente eram muito diversas, mas que o Adolpho, com a sua personalidade, irmanava. Era certamente um patriarca, uma figura forte, que passava para todos nós essa força de pai, de mãe, de amigo a toda prova.”
Ivo Pitanguy


Crônica de um império
Acredito que poucas vezes o velho chavão – “Talvez não seja eu a pessoa certa para escrever este prefácio” – terá sido usado com tanta sinceridade como neste começo de conversa. Verdade. Afinal, contadas nos dedos, as quatro vezes que entrei e saí da Manchete (entendendo-se como tal o conjunto de publicações de Bloch Editores) somam um total de apenas 51 meses, quase nada perto dos muitos anos de vida e de brilho que a maioria dos autores dedicou àquela que Justino Martins me definiu como “império de loucos”.

Sendo assim, por que aceitar o convite de José Esmeraldo para tarefa que merecia alguém mais indicado? Resposta: ao saber que entre os depoentes estariam Roberto Muggiati, Carlos Heitor Cony, Renato Sérgio, Zevi Ghivelder e o próprio Esmeraldo, para citar apenas cinco com os quais tive o privilégio de trabalhar, logo imaginei, não uma história oficial, detalhista, mas excelentes relatos jornalísticos que me lembrassem – e dessem idéia ao leitor – do que foi Manchete.

A imaginação virou realidade. Este livro me lembra e dá ao leitor idéia precisa do que foi a Manchete: uma casa sobre a qual é impossível ter idéia precisa. Nenhuma contradição nisso. Nem se pense que os depoimentos se conflitam, se desmentem, se confundem como as versões de Rashomon. Pelo contrário, é nas diferenças de tom, de olhares, de estilo dos autores que ficamos sabendo, mais que tudo, que Manchete existiu em torno da figura, do temperamento, do carisma de um homem feito de imprecisões: Adolpho Bloch. O que me leva de volta ao “império” de que Justino me falou, num daquelas papos pós-fechamento, ele, eu e Ruy Castro.

Definir Manchete é fácil; difícil, mesmo, é ter idéia precisa do homem que a criou. Exemplos? Para o amigo Oscar Niemeyer, o arquiteto do palácio sede do império, Adolpho defendia “posições de esquerda”, mas para a depoente Daisy Prétola, tinha “idiossincrasia por qualquer regime de esquerda”. Para Zevi, faziam-se ali “entretenimento e jornalismo de qualidade”, mas para o citado Justino, muita coisa era “marreta”, palavra que ele preferia a picaretagem. Jornalismo de qualidade que, na pressa por uma reportagem sensacionalista, acusou um cidadão de Itaperuna de ter matado o filho. A barrigada quase vale a Cony – que não tinha nada a ver com a história – mais uma prisão, esta não política. Mas um jornalismo que contou, em suas diferentes revistas, com alguns dos melhores profissionais da praça. Muitos eram demitidos, como lembra Renato Sérgio, por “injusta causa”, mas readmitidos depois com pedido de desculpas. Elegante, segundo José Rodolpho Câmara, mas capaz de levar a cadela Manchetinha para sentar-se com ele à mesa de um restaurante fino. Delicado, senhor de gestos os mais generosos, fiel não só a JK, mas a funcionários como Marechal, contínuo de luxo, ou como seu Ferreira, garçom insuportável quando o Fluminense perdia, mas ao mesmo tempo dado a comer com raiva um cromo que não o agradasse ou de jogar lá embaixo, do sexto andar, o guarda-chuva que o distraído José Inácio Werneck esqueceu sobre a mesa (esta história não está no livro). Pessoalmente, testemunhei dois humores, duas reações antagônicas: uma, de carinho (quando, preocupado com a dor de garganta de Macedo Miranda, insistiu e pagou consulta para que fosse examinado por um mestre do diagnóstico) e outra, de ódio (quando soube que o general Ernesto Geisel classificara o sionismo de racista). Era um empreendedor que realmente construiu um império, mas que defendia que todas, e cada uma de suas revistas, eram deficitárias, mas que, juntas, davam lucro. Como ser preciso na descrição ou avaliação de um homem como aquele?

Essa questão de império me lembra de que Adolpho Bloch não gostava de mim. Um desgostar que guardou até bem pouco antes de morrer. Um dia, seu Ferreira, possivelmente de cabeça inchada, brigou com um repórter. Adolpho chamou os diretores de revista para proibi-los de tocar no assunto. Que ninguém ficasse do lado do repórter e que, para o bem de seu Ferreira, pusessem todos uma pedra sobre o assunto. Como eu tinha ido almoçar fora, cheguei à redação da Enciclopédia Bloch, da qual era redator, sem saber da tal briga. Ouvi-a contada por Roberto Quintaes, outro redator. Estava eu de costas para Quintaes e de frente para a bela vista do mar, quando comentei: “Seu Ferreira é mesmo um criador de caso.” Eis que ouço uma voz atrás de mim: “Que seu Ferreira é esse? De quem você está falando?” Era Adolpho Bloch. Por não saber da proibição, menti: “É um amigo meu, seu Adolpho, do Jornal do Brasil.” Adolpho saiu dali e foi sussurrar alguma coisa para nosso diretor, José Itamar de Freitas. Depois, passos lentos, escondeu-se atrás de uma pilastra. Não demorou muito, veio até a porta da sala e perguntou, agora em voz alta: “Então, Itamar, não vai falar com ele?” Itamar fez com a cabeça que sim. Vendo Adolpho esconder-se novamente atrás da pilastra, me chamou. Baixinho, para que ninguém ouvisse, mas gesticulando como se estivesse zangado, deu uma de ator: “Finge que eu estou te dando um esporro. O Adolpho não quer que se fale mais no seu Ferreira. Ele mandou te dizer que construiu este império sozinho, sem a sua ajuda, e não admite que você o desobedeça. Agora, vai lá, senta e faz cara de humilhado.”

Sim, a Manchete era mesmo o império de que Justino me falara. E Adolpho Bloch, o imperador. O curioso é que eu gostava dele, do tipo dele, da personalidade dele, assim como daquela casa que um punhado de admiráveis colegas revivem aqui em seus textos. Por fim, uma boa forma de se fazer justiça é não se cuspir no prato em que se comeu. E a Manchete – como esquecer? – era a casa que me abrigava sempre que as coisas não corriam bem cá fora.

João Máximo

EDITORA DESIDERATA   |   PRIVACIDADE   |   FALE CONOSCO            FROG

    Todos os direitos reservados.